Razão e Fé

"A tradição católica desde o início rejeitou o assim chamado fideísmo, que é a vontade de crer contra a razão. Creio quia absurdum (creio porque é absurdo) não é fórmula que interpreta a fé católica. Deus, na verdade, não é absurdo, mas sim é mistério. O mistério, por sua vez, não é irracional, mas uma superabundância de sentido, de significado, de verdade. Se, olhando para o mistério, a razão vê escuridão, não é porque no mistério não tenha a luz, mas porque existe muita (luz). Assim como quando os olhos do homem se dirigem diretamente ao sol para olhá-lo, veem somente trevas; mas quem diria que o sol não é luminoso, antes a fonte da luz? A fé permite olhar o “sol”, Deus, porque é acolhida da sua revelação na história e, por assim dizer, recebe verdadeiramente toda a luminosidade do mistério de Deus, reconhecendo o grande milagre: Deus se aproximou do homem, ofereceu-se ao seu conhecimento, consentindo ao limite criador da sua razão (cfr Conc. Ec. Vat. II, Cost. Dogm. Dei Verbum, 13). Ao mesmo tempo, Deus, com a sua graça, ilumina a razão, abre-lhe horizontes novos, imensuráveis e infinitos. Por isto, a fé constitui um estímulo a buscar sempre, a não parar nunca e nunca aquietar-se na descoberta inesgotável da verdade e da realidade. É falso o pré-juízo de certos pensadores modernos, segundo os quais a razão humana seria como que bloqueada pelos dogmas da fé. É verdade exatamente o contrário, como os grandes mestres da tradição católica demonstraram. Santo Agostinho, antes de sua conversão, busca com tanta inquietação a verdade, através de todas as filosofias disponíveis, encontrando todas insatisfatórias. A sua cansativa investigação racional é para ele uma significativa pedagogia para o encontro com a Verdade de Cristo. Quando diz: “compreendas para crer e creias para compreender” (Discurso 43, 9:PL 38, 258), é como se contasse a própria experiência de vida. Intelecto e fé, antes da divina Revelação, não são estranhas ou antagonistas, mas são ambas duas condições para compreender o sentido, para transpor a autêntica mensagem, se aproximando-se do limite do mistério. Santo Agostinho, junto a tantos outros autores cristãos, é testemunha de uma fé que se exercita com a razão, que pensa e convida a pensar. Neste sentido, Santo Anselmo dirá em seu Proslogion que a fé católica é fides quaerens intellectum, onde o buscar a inteligência é ato interior ao crer. Será sobretudo São Tomás de Aquino – forte nesta tradição – a confrontar-se com a razão dos filósofos, mostrando quanta nova fecunda vitalidade racional vem ao pensamento humano do acoplamento dos princípios e da verdade da fé cristã." (Trecho da Catequese de Bento XVI - Racionalidade da fé em Deus - 21/11/2012)

domingo, 25 de maio de 2014

Santa Catarina de Génova

PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011


Santa Catarina de Génova
Prezados irmãos e irmãs!
Hoje gostaria de vos falar de outra santa que tem o nome de Catarina, depois de Catarina de Sena e Catarina de Bolonha; falo de Catarina de Génova, conhecida sobretudo pela sua visão sobre o purgatório. O texto que descreve a sua vida e o seu pensamento foi publicado nessa cidade da Ligúria em 1551; ele é dividido em três parte: a Vida propriamente dita, a Demonstração e declaração do purgatório — mais conhecida como Tratado — e o Diálogo entre a alma e o corpo (cf. Livro da Vida admirável e da doutrina santa, da beata Catarina de Génova, que contém uma útil e católica demonstração e declaração do purgatório, Génova, 1551). O redactor final foi o confessor de Catarina, o sacerdote Cattaneo Marabotto.
Catarina nasceu em Génova, em 1447; última de cinco filhos, ficou órfã do pai, Giacomo Fieschi, ainda em tenra idade. A mãe, Francesca di Negro, dispensou uma válida educação cristã, a tal ponto que a maior das duas filhas se tornou religiosa. Com 16 anos, Catarina foi concedida como esposa a Giuliano Adorno, um homem que, depois de várias experiências comerciais e militares no Médio Oriente, tinha regressado a Génova para casar. A vida matrimonial não foi fácil, também devido à índole do marido, apaixonado pelo jogo de azar. Inicialmente, a própria Catarina foi induzida a levar um tipo de vida mundana em que, contudo, não conseguia encontrar a serenidade. Depois de dez anos, no seu coração havia um profundo sentido de vazio e de amargura.
A conversão teve início a 20 de Março de 1473, graças a uma experiência singular. Tendo ido à igreja de são Bento e ao mosteiro de Nossa Senhora das Graças para se confessar, ajoelhou-se diante do sacerdote e «recebeu — como ela mesma escreve — uma chaga no coração, de um imenso amor de Deus», com uma visão tão clarividente das suas misérias e dos seus defeitos e, ao mesmo tempo, da bondade de Deus, que quase desmaiou. Foi tocada no coração por este conhecimento de si mesma, da vida vazia que ela levava e da bondade de Deus. Desta experiência derivou a decisão que orientou toda a sua vida, expressa com estas palavras: «Basta com o mundo e com os pecados» (cf. Vida admirável, 3rv). Então Catarina fugiu, suspendendo a Confissão. Voltou para casa, entrou no quarto mais escondido e chorou prolongadamente. Naquele momento, foi instruída interiormente sobre a oração e adquiriu a consciência do imenso amor de Deus por ela, pecadora, uma experiência espiritual que não conseguia expressar com palavras (cf. Vida admirável, 4r). Foi nessa ocasião que lhe apareceu Jesus sofredor que carregava a cruz, como é frequentemente representado na iconografia da santa. Poucos dias depois, foi ter com o sacerdote para finalmente realizar uma boa Confissão. Aqui teve início aquela «vida de purificação» que, durante muito tempo, lhe fez sentir uma dor constante pelos pecados cometidos e que a impeliu a impor-se penitências e sacrifícios para demonstrar o seu amor a Deus.
Neste caminho, Catarina foi-se aproximando cada vez mais do Senhor, até entrar naquela que é denominada «vida unitiva», ou seja, uma relação de profunda união com Deus. Na Vida está escrito que a sua alma era orientada e ensinada interiormente só pelo dócil amor de Deus, que lhe concedia tudo aquilo que ela precisava. Catarina abandonou-se de modo tão total nas mãos do Senhor que chegou a viver, durante cerca de vinte e cinco anos — como ela escreve — «sem o intermédio de qualquer criatura, instruída e governada unicamente por Deus» (Vida, 117r-118r), alimentada sobretudo pela oração constante e pela Sagrada Comunhão recebida todos os dias, o que não era comum na sua época. Só muitos anos mais tarde o Senhor lhe concedeu um sacerdote que cuidasse da sua alma.
Catarina hesitava sempre em confiar e manifestar a sua experiência de comunhão mística com Deus, sobretudo pela profunda humildade que sentia diante das graças do Senhor. Foi só a perspectiva de dar glória a Ele e de poder favorecer o caminho espiritual de outros que a levou a narrar aquilo que se verificava nela, a partir do momento da sua conversão, que é a sua experiência originária e fundamental. O lugar da sua ascensão aos vértices místicos foi o hospital de Pammatone, a maior estrutura hospitalar genovesa, da qual foi directora e animadora. Portanto, não obstante esta profundidade da sua vida interior, Catarina vive uma existência totalmente activa. Em Pammatone foi-se formando ao seu redor um grupo de seguidores, discípulos e colaboradores, fascinados pela sua vida de fé e pela sua caridade. O próprio marido, Giuliano Adorno, foi conquistado por ela, a ponto de abandonar a sua vida desregrada, de se tornar terciário franciscano e de se transferir para o hospital, para oferecer a sua ajuda à esposa. O compromisso de Catarina no cuidado dos doentes continuou até ao fim do seu caminho terreno, a 15 de Setembro de 1510. Desde a conversão até à morte, não houve acontecimentos extraordinários, mas dois elementos caracterizaram toda a sua existência: por um lado a experiência mística, ou seja, a profunda união com Deus, sentida como uma união esponsal e, por outro, a assistência aos enfermos, a organização do hospital e o serviço ao próximo, especialmente aos mais necessitados e abandonados. Estes dois pólos — Deus e o próximo — preencheram totalmente a sua vida, transcorrida praticamente entre as paredes do hospital.
Estimados amigos, nunca devemos esquecer que quanto mais amarmos a Deus e formos constantes na oração, tanto mais conseguiresmos amar verdadeiramente quantos estão ao nosso redor, quem está perto de nós, porque seremos capazes de ver em cada pessoa o Rosto do Senhor, que ama sem limites nem distinções. A mística não cria distâncias em relação ao outro, não cria uma vida abstracta, mas sobretudo aproxima do outro, porque se começa a ver e a agir com os olhos, com o Coração de Deus.
O pensamento de Catarina sobre o purgatório, pelo qual ela é particularmente conhecida, está condensado nas últimas duas partes do livro citado no início: o Tratado sobre o purgatório e oDiálogo entre a alma e o corpo. É importante observar que, na sua experiência mística, Catarina jamais tem revelações específicas sobre o purgatório ou sobre as almas que ali estão a purificar-se. Todavia, nos escritos inspirados pela nossa santa, é um elemento central, e o modo de o descrever tem características originais em relação à sua época. O primeiro traço original diz respeito ao «lugar» da purificação das almas. No seu tempo, ele era representado principalmente com o recurso a imagens ligadas ao espço: pensava-se num certo espaço, onde se encontraria o purgatório. Em Catarina, ao contário, o purgatório não é apresentado como um elemento da paisagem das vísceras da terra: é um fogo não exterior, mas interior. Este é o purgatório, um fogo interior. A santa fala do caminho de purificação da alma, rumo à plena comunhão com Deus, a partir da própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em relação ao amor infinito de Deus (cf. Vida admirável, 171v). Ouvimos sobre o momento da conversão, quando Catarina sente repentinamente a bondade de Deus, a distância infinita da própria vida desta bondade e um fogo ardente no interior de si mesma. E este é o fogo que purifica, é o fogo interior do purgatório. Também aqui há um traço original em relação ao pensamento do tempo. Com efeito, não se começa a partir do além para narrar os tormentos do purgatório — como era habitual naquela época e talvez ainda hoje — e depois indicar o caminho para a purificação ou a conversão, mas a nossa santa começa a partir da própria experiência interior da sua vida a caminho da eternidade. A alma — diz Catarina — apresenta-se a Deus ainda vinculada aos desejos e à pena que derivam do pecado, e isto torna-lhe impossível regozijar com a visão beatífica de Deus. Catarina afirma que Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina (cf. Vida admirável, 177r). E também nós sentimos como estamos distantes, como estamos repletos de tantas coisas, a ponto de não podermos ver Deus. A alma está consciente do imenso amor e da justiça perfeita de Deus e, por conseguinte, sofre por não ter correspondido de modo correcto e perfeito a tal amor, e precisamente o amor a Deus torna-se chama, é o próprio amor que a purifica das suas escórias de pecado.
Em Catarina entrevê-se a presença de fontes teológicas e místicas das quais era normal haurir na sua época. Em particular, encontra-se uma imagem típica de Dionísio, o Areopagita, ou seja, aquela do fio de ouro que liga o coração humano ao próprio Deus. Quando Deus purifica o homem, liga-o com um fio de ouro extremamente fino, que é o seu mor, e atrai-o a si com um afecto tão forte, que o homem permanece como que «superado, vencido e totalmente fora de si». Assim, o coração do homem é invadido pelo amor de Deus, que se torna o único guia, o único motor da sua existência (cf. Vida admirável, 246rv). Esta situação de elevação a Deus e de abandono à sua vontade, expressa na imagem do fio, é utilizada por Catarina para manifestar a obra da luz divina nas almas do purgatório, luz que as purifica e eleva aos esplendores dos raios fúlgidos de Deus (cf. Vida admirável, 179r).
Queridos amigos, na sua experiência de união com Deus os santos alcançam um «saber» tão profundo dos mistérios divinos, no qual o amor e o conhecimento se compenetram, a ponto de ajudarem os próprios teólogos no seu compromisso de estudo, de intelligentia fidei, deintelligentia dos mistérios da fé, de aprofundamento real dos mistérios, por exemplo daquilo que é o purgatório.
Com a sua vida, santa Catarina ensina-nos que quanto mais amamos a Deus e entramos em intimidade com Ele na oração, tanto mais Ele se faz conhecer e acende o nosso coração com o seu amor. Escrevendo acerca do purgatório, a santa recorda-nos uma verdade fundamental da fé, que se torna para nós um convite a rezar pelos defuntos, a fim de que eles possam chegar à visão beatífica de Deus na comunhão dos santos (cf. Catecismo da Igreja Católican. 1032). Além disso, o serviço humilde, fiel e generoso, que a santa prestou durante toda a sua vida no hospital de Pammatone, é um exemplo luminoso de caridade para todos e um encorajamento especialmente para as mulheres que oferecem uma contribuição fundamental para a sociedade e a Igreja com a sua obra preciosa, enriquecida pela sua sensibilidade e pela atenção aos mais pobres e necessitados. Obrigado!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Artigos sobre o Islã: Parte III - O Alcorão


Artigos sobre o Islã: Parte III - O Alcorão

Dando continuidade à série sobre o Islã, o blog publica o terceiro texto de autoria de Alexandre Semedo de Oliveira. O primeiro, você acessa clicando em:


E o segundo clicando em:



Segue o terceiro texto:

                                               Parte III - O Alcorão

Por Alexandre Semedo de Oliveira*


Nós já citamos nesta série de artigos acerca de uma tendência natural do ser humano de imaginar que determinados padrões com os quais alguém está acostumado são universais quando na verdade não são. Tal tendência faz com que muitos ocidentais pensem no Alcorão como sendo algo parecido com a Bíblia, ainda que contendo uma mensagem um tanto quanto diferente.

Na verdade, contudo, o Alcorão é algo profundamente diverso.

Trata-se de um livro pequeno, com apenas 114 capítulos (as suras, ou suratas). Alguns são muito grandes (a segunda sura tem 286 versículos); outros, bem pequenos (a sura 110 tem apenas quatro versículos). O livro dos muçulmanos, portanto, é menor que o Novo Testamento.

As suras não estão dispostas em ordem cronológica. A que primeiro teria sido revelada ocupa a 96ª posição nos Alcorões modernos. Também não estão dispostas em ordem lógica, como acontece com as Sagradas Escrituras cristãs. Na verdade, a disposição delas é bastante aleatória, mas, se fosse para tentar estabelecer uma regra, poderíamos dizer que elas se encontram mais ou menos (bem mais ou menos) dispostas da maior para a menor.

Por fim, cada sura tem um nome. A primeira (uma pequena oração) chama-se “al fátiha”, ou “a abertura”; a segunda, “al bákara” (“a vaca”); a terceira, “ali aimarana” (“a família de Aarão), etc.. E, por incrível que possa parecer, o nome dado à sura, salvo raras exceções, não espelha o assunto principal dela, sendo, também ele, um nome aleatório.

Assim, um brasileiro que está somente folheando um Alcorão, ao ler o nome da segunda sura, poderia achar estranho que Deus tivesse dedicado 286 versículos para tratar de vacas. Mas, na verdade, a sura em questão é um amálgama de diversos assuntos absolutamente desconexos, sendo que a mudança entre eles é abrupta e, novamente, sem qualquer lógica interna. A longuíssima sura “al bákara” tira seu nome de meros quatro versículos , nos quais se narra uma fictícia conversa de Moisés com seu povo acerca do sacrifício de uma vaca.

Desta forma, a própria estrutura do Alcorão é um tanto quanto desconcertante para um ocidental comum. Não há lógica na ordem das suras, nos nomes dados a elas, nem, internamente, entre os assuntos nelas tratados, o que faz da leitura do Alcorão algo um tanto quanto árduo.

Passemos, agora, a tratar de pontos importantes para a compreensão deste estranho livro islâmico.


1) A posição teológica – “Umm al-Kitab”.

A visão que um muçulmano tem do Alcorão diverge muito daquela que os cristãos têm da Bíblia, especialmente da católica (que, no fundo, é a única que nos interessa).

Para os católicos, cada livro da Bíblia teve um autor diferente, que o escreveu com um propósito particular, que nele pôs seu estilo próprio (e suas palavras típicas), mas que foi inspirado por Deus ao escrever, de forma que, ao final das contas, escreveu tudo o que Deus queria e apenas o que Ele desejava. Além disto, a Bíblia, por mais sagrada que seja, não contém a totalidade da revelação divina, ombreando com a Tradição Apostólica, completando-se ambas mutuamente.

Para um muçulmano, contudo, o Alcorão contém, materialmente, a palavra de Deus aos homens. Não foi Maomé que o escreveu (mesmo porque, lembremos, ele era analfabeto). O anjo Gabriel veio e ditou para o profeta árabe exatamente as palavras que já se encontravam escritas em um livro eterno, que existe desde sempre com Deus no céu. O Alcorão é, assim, “Umm al-Kitab”, ou a mãe de todos os livros.

É óbvio que a ideia de que há no céu um livro não criado cheira a politeísmo, visto que este livro guardaria pelo menos um dos atributos divinos, tendo um ser em si mesmo. Além disto, não deixa de ser estranho que este “umm al-kitab” contenha passagens corrigindo os comensais de Maomé (como já visto) e outras tantas que existem apenas para resolver problemas da vida dele. Por fim, é de todo absurdo que o livro eterno dos árabes contenha passagens incompreensíveis e, segundo alguns, inclusive erros de gramática.

Mas, enfim, é esta a fé islâmica...

Justamente por conter a materialmente a palavra de Deus aos homens, o Alcorão não pode ser traduzido. Ao ser vertido para uma outra língua, ainda que muitíssimo bem traduzido, o texto contém palavras do tradutor e, assim, deixou de ser o Alcorão propriamente dito.  Um bom muçulmano, ainda que não saiba árabe, deve lê-lo nesta língua. No mundo islâmico, é relativamente comum que pessoas decorem todo o Alcorão em árabe sem conhecer nada de árabe, e, portanto, por incrível que pareça, decoram um livro cuja mensagem desconhecem completamente.

Robert Spencer, em seu livro “The Complete Infidel’s Guide to the Koran” narra que, um dia, um conhecido paquistanês disse-lhe ter muito orgulho de sua fé islâmica a ponto de ter decorado todo o Alcorão. Disse, ainda, que um dia pretendia comprar uma tradução do livro para saber exatamente o que ele ensina...


2) A compilação do Alcorão.

Muito embora o Alcorão refira-se a si mesmo em diversas ocasiões como um “livro” (kitab) e que se refira, também inúmeras vezes aos seus próprios versículos (ayat), o fato é que as revelações de Maomé não surgiram enquanto livro nem possuíam inicialmente versículos. Lembremo-nos que o “profeta” era analfabeto e que, portanto, não sabia escrever.

As supostas revelações de Gabriel eram-lhe ditadas e Maomé, em seguida, as recitava para seus discípulos. Estes, por sua vez, também as recitavam, de forma que a religião islâmica foi se formando em torno de uma recitação, e não em torno de um livro propriamente dito. Aliás, o próprio termo “Qu’ran” significa “recitação”, o que basta para definir o seu caráter.

Portanto, as inúmeras vezes que o Alcorão refere-se a si mesmo como um livro, que contém versículos são, claramente, anacronismos. Trata-se de uma noção posterior retro-projetada em uma época que as “recitações” já haviam sido compiladas em um único volume.

Assim, pergunta-se: quando e como foi compilado o Alcorão? Para responder a esta pergunta, utilizar-me-ei, primeiramente, da historiografia clássica dos muçulmanos, sem que isto represente uma adesão a ela.

Após a morte de Maomé (ocorrida em 632 d.C.), seus seguidores supostamente seguiram recitando as suras oralmente. Ocorre que o califa então reinante (Abu Bakr) enfrentou uma revolta de algumas tribos árabes e travou-se entre elas e os muçulmanos uma batalha, que entrou para a história como a Batalha de Yamama. Nela, muitos muçulmanos morreram, inclusive um que sabia todo o Alcorão de cor, o que fez com que o califa temesse pela sobrevivência das revelações. Abu Bakr, então, determinou que um jovem muçulmano (também ele conhecedor de todo o Alcorão de cor) colocasse as revelações por escrito. Este homem se chamava Zaid bin Thabit, que muito relutou em fazê-lo, dizendo que seria mais leve para ele erguer uma montanha do que compilar o Alcorão.

Zaid, então, finalmente convencido a empreender tal tarefa, entrevistou-se com vários muçulmanos e pesquisou inúmeros materiais para escrever o texto[1].

Terminado seu trabalho, ao que tudo indica a compilação feita ficou como que esquecida. O primeiro califa morreu e foi sucedido por Omar. Este também morreu e foi sucedido por Uthman (que reinou entre os anos de 644 e 656 d. C.). Durante o reinado deste, dada a discordância de muitos muçulmanos quanto ao texto do Alcorão, sentiu-se a necessidade de uma padronização total das escrituras islâmicas. Foi então que Uthman, por volta do ano de 653 d. C., tomou uma medida radical, que traria conseqüências muito grandes para o mundo muçulmano.


3) A grande padronização.

Segundo as lendas islâmicas, Maomé recebeu as recitações em árabe, no dialeto da tribo dos Qu’raish (à qual ele próprio pertencia). Contudo, em uma determinada altura, ele se queixou com Gabriel alegando ser necessário que as demais tribos também pudessem recitar as revelações nos seus próprios dialetos. Gabriel, então aquiesceu ao pedido de Maomé e permitiu a recitação do Alcorão em sete dialetos distintos.

Uthman, contudo, partindo daquela antiga compilação de Zaid Bin Thabit, reduziu novamente (com que autoridade, ninguém consegue explicar) a recitação a apenas um dialeto, exatamente o da tribo dos Qu’raish. Ele mandou que se fizessem cópias do texto de Zaid e que elas fossem mandadas para todo o mundo muçulmano, com ordens expressas para que todas as demais versões fossem destruídas até que não houvesse mais sinais delas.

Tal medida extrema trouxe duas conseqüências drásticas:

a) Uma vez que o cânon de Uthman foi imposto sobre todo o mundo islâmico, é absolutamente impossível para um muçulmano demonstrar, empiricamente, que o texto do Alcorão que ele hoje recita é o mesmo recitado por Maomé, sem acréscimos nem subtrações. O postulado básico da teologia islâmica (a de que a revelação corânica foi perfeitamente preservada por Deus) tornou-se, então, impossível de ser verificado.

b) Com a padronização do texto num único dialeto, Uthman frustrou o objetivo supostamente divino de que o Alcorão fosse recitado de forma a se ter por facilitada sua compreensão. Hoje, todo muçulmano deve recitá-lo em árabe clássico, mesmo que a quase totalidade dos fiéis de Allah (mesmo os de língua árabe moderna) o desconheça, não tendo qualquer possibilidade, conforme acima dito, de entender o conteúdo do livro.

Além disto, tem-se o objetivo de Uthman ao forçar uma padronização absoluta do texto não impediu que, aqui e ali, surgissem vozes discordantes demonstrando que o texto imposto é de exatidão no mínimo muitíssimo discutível.

A voz discordante mais famosa foi a de Abdulha ibn Massud, um dos companheiros de Maomé, a quem o próprio “profeta” indicou como sendo um dos que sabiam recitar o Alcorão de cor. Ibn Massud recusou-se a aceitar a codificação de Uthman, mantendo a sua própria, com apenas 111 suras (três a menos do que as que constam dos alcorões modernos).

Outra voz dissonante de extrema importância foi Ubayy ibn Ka’b, um outro muçulmano apontado por Maomé como estando entre os melhores recitadores do Alcorão. O cânon de Ubayy tinha 116 suras, duas a mais do que o de Uthman.

Pela própria historiografia islâmica, é hoje impossível a qualquer um averiguar se o Alcorão moderno realmente corresponde à totalidade das revelações que Maomé supostamente teria recebido e se, ao final das contas, não contém nada além delas.

E isto, por si só, faz desabar o universo teológico do Islã...


4) Uma história diferente.

A história contada acima é a tradicional. Contudo, ao lado dela, existe uma segunda história de como o Alcorão foi compilada, história esta que, se verdadeira, põe abaixo o Islã como um todo.

Cada vez mais os estudiosos reconhecem um papel de destaque no califa Abd al-Malik (que reinou entre os anos de 685 a 705 d.C.) na formação do Islã tal qual nós o conhecemos. Há um hadith em que se afirma que foi justamente em seu reinado que o Alcorão começou a ser recitado nas orações feitas nas mesquitas. Num outro hadith, conta-se que Abd al-Malik teria dito: “Eu temo morrer no mês do Ramadã: nele eu nasci, nele  fui desmamado, nele eu compilei o Alcorão, e nele eu fui eleito califa”.

Embora este seja um hadith tardio, não se percebe nenhuma razão para que muçulmanos o tivessem inventado, visto que sua própria existência colocaria em risco a fé islâmica. Se Abd al-Malik compilou o Alcorão, então mais de sessenta anos se passaram entre a morte de Maomé e o surgimento do livro sagrado do Islã, o que, de um lado, explicaria a completa ausência de registros históricos acerca do Alcorão até a virada do século sétimo para o oitavo, e, de outro, a afirmação de que, até então, ele não era recitado nas mesquitas. E isto nos permitiria perguntar: será que efetivamente este livro contém revelações feitas a um profeta árabe? Ou será que ele não passa de uma compilação de textos destinados a dar ao império dos califas uma unidade religiosa em torno de um monoteísmo que pudesse fazer frente à fé do Ocidente?

Há sérios indícios de que, de fato, o Alcorão não foi codificado por Uthman, mas bem depois dele. Durante o califado de Abd al-Malik, houve um personagem de grande influência política e religiosa: Hajjaj bin Yusuf, que teria sido quem, efetivamente, coletou o Alcorão a partir de textos escritos por cristãos da Síria (o que explicaria a imensidão de passagens sem sentido: tratar-se-iam – pasmem! – de traduções mal feitas) e remodelados para se adequarem à cultura árabe.

Um apologista cristão do século oitavo (al Kindi) escreveu que foi Hajjaj quem coletou os textos do Alcorão, causando a destruição de todas as outras cópias então existentes.

Há ainda uma carta supostamente escrita pelo imperador Bizantino Leão III para o califa Umar (que reinou entre 717 e 720 d.C.), na qual se afirma: “Quanto ao seu livro, você já nos deu prova de tais falsificações, e é sabido que um certo Hajjaj, (..), que você mesmo apontou como governador da Pérsia, e cujos homens juntaram seus livros antigos, que ele substituiu por outros compostos por ele próprio e de acordo com seu próprio estilo, e que ele o disseminou por todos os cantos de seu país (...)

Eis aí...

Ao invés de Uthman, Abd al-Malik.

Ao invés de Zaid Bin Thabit, Hajjaj Bin Yusuf.

Ao invés de um desejo piedoso de preservar a revelação corânica, um desejo político de conceder ao vasto império árabe uma unidade religiosa.

Ambas estórias são nitidamente paralelas e se sobrepõem. No mínimo, uma delas é falsa. Nenhuma delas conta com base histórica que possa assegurar ser mais crível do que a outra, pois ambas, em última análise se baseiam em hadiths escritos muito depois.

Desta forma, o Alcorão mesmo cai na bruma da escuridão histórica, sendo impossível saber até que ponto ele efetivamente corresponde àquilo que Maomé pregou. E, segundo alguns, é mesmo impossível saber se Maomé, ao final das contas, pregou alguma coisa ou mesmo que ele tenha existido.

Se Deus o permitir, falaremos mais sobre isto em outros artigos. No próximo, pretendemos introduzir o leitor nos hadiths, que completam o Alcorão e formam, com ele, a base da doutrina islâmica.





[1] A relutância de Zaid e a necessidade da pesquisa por ele feita, adotada a historiografia tradicional, são fatos incompreensíveis. Ora, se o Alcorão se refere a si mesmo como um “livro” em diversas oportunidades, então, qual a razão da hesitação de Zaid? E, se ele realmente era um hafiz (alguém que sabe de cor todo o Alcorão), então, porque simplesmente não se sentou e escreveu o texto que já havia memorizado?

* O autor é Juiz de Direito no Estado de São Paulo.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Artigos sobre o Islã: Parte II - Maomé e sua centralidade na fé islâmica.



Dando continuidade à série sobre o Islã, o blog publica o segundo texto de autoria de Alexandre Semedo de Oliveira. O primeiro, você acessa clicando em:


Segue o segundo texto:

Parte II: Maomé e sua centralidade na fé islâmica.

Por Alexandre Semedo de Oliveira*

Para que se possa compreender o Islã, é absolutamente necessário conhecer-se a figura e a história de Maomé. Não apenas porque ele é o fundador mesmo desta religião, mas porque a própria revelação islâmica ocorreu, conforme as tradições dos muçulmanos, tendo como pano de fundo sua vida.

Na verdade (conforme veremos um pouco mais à frente), o Alcorão, enquanto livro, confere muito pouca informação acerca de moral religiosa e, lido sozinho, é bastante confuso e, muitas vezes, incompreensível e contraditório. Para entendê-lo, e para fundamentar sua prática religiosa, os muçulmanos recorrem à vida de seu profeta de tal forma que determinada passagem obscura possa ser compreendida no cotejo dela com o que acontecia com Maomé no momento mesmo em que ela foi revelada. Pois, por incrível que possa parecer ao um ocidental, muito da revelação islâmica ocorreu apenas para que se resolvessem problemas da vida de Maomé.

Veja-se, por exemplo, o que consta da Sura 33, 53:

Ó fiéis, não entreis na casa do Profeta, salvo se tiverdes sido convidados a uma refeição, mas não para aguardardes a sua preparação. Porém, se fordes convidados, entrai; e quando tiverdes sido servidos, retirai-vos sem fazer colóquio familiar, porque isso molestaria o Profeta e este se envergonharia de vós; porém, Deus não Se envergonha da verdade. E se isso será mais puro para os vossos corações e para os delas. Não vos é dado molestar o Mensageiro de Deus nem jamais desposar as suas esposas, depois dele, porque isso seria grave ante Deus.


O trecho acima mostra, claramente, como a revelação corânica funciona. Maomé tem um problema? Deus se apressa em resolvê-lo[1], mandando uma revelação com este intuito. Ainda que se trate de um problema banal (no caso, parece que Maomé se incomodava com constantes visitas e com o fato de elas demorarem em sua casa após o jantar, mas tinha vergonha de dizê-lo), suras desciam do céu para dele livrar o predileto de Deus. Por vezes, da leitura do próprio versículo se percebe qual o problema de Maomé que Deus está resolvendo com ele; outras vezes, não é possível percebê-lo pelo texto mesmo, sendo, então, necessário recorrer-se às diversas narrações de sua vida para se saber o que acontecia no momento em que a revelação veio, e, assim, entender o que ela significa.

Portanto, é absolutamente necessário, nesta série de artigos que visa introduzir o leitor no conhecimento do Islã, um conhecimento, ainda que superficial, da vida de Maomé. É o que passamos a fazer.

Maomé teria nascido, segundo a historiografia islâmica tradicional, no ano de 570 da Era Cristã. Seu nome em árabe (Mohammed) significa “Aquele que é digno de louvor” e, na verdade, é um título dado a todos os profetas, não existindo registro de ninguém que tenha tido tal nome antes do próprio Maomé. Seu pai se chamava Abdallah, cujo significado é “servo de Deus”, tratando-se também de um título comum a todos os profetas. Desta forma, o nome completo do fundador do Islã é Mohammed bin Abdallah: o digno de louvor, filho do servo de Deus; o que, na verdade constitui um suspeito amálgama de títulos dados aos profetas em geral.

Seja como for, Maomé perdeu os pais ainda criança e foi criado por seu tio, jamais aprendendo a ler. Com a idade de 25 anos, casou-se com uma viúva rica da cidade de Meca, cujo nome era Khadija, e, a partir de então, tinha tempo de sobra para não fazer coisa alguma, supostamente dedicando-se à meditação.

No ano de 610, quando já tinha cerca de 40 anos, Maomé se retirou para uma caverna (al Hira) aos arredores de Meca, e lá, recebeu a visita de um ser misterioso, que, sufocando-o, ordenava: “Leia!”. O pobre Maomé informou que não sabia ler, mas o visitante insistia: “Leia!” Depois de ter sido informado, pela terceira vez que Maomé não sabia ler, o visitante revelou ser o anjo Gabriel, e que, doravante, ele seria um anunciador de uma nova religião.Esta primeira revelação seria, hoje, a Sura 96 (“O Coágulo”)

Qualquer cristão acostumado às narrativas de aparições de anjos nas Sagradas Escrituras percebe, claramente, que há algo de errado nesta estória. Os anjos, quando aparecem aos homens por favor divino, causam, ao certo, um temor naquele a que visitam, mas, desde logo, tratam de acalmá-los com palavras de conforto: “Não temais”; ou “não tenhais medo”.

O “Gabriel” de Maomé, contudo, agiu de forma diversa, atacando-o violentamente diversas vezes, estrangulando-o, sem jamais confortá-lo, o que se assemelha mais a uma aparição demoníaca do que propriamente a uma angelical.

O fato é que Maomé relatou o ocorrido a Khadija, que o levou a aconselhar-se com seu tio, Warraca, supostamente um cristão que traduzia os Evangelhos (ao menos parte deles) para o árabe, apesar de ser cego. Pois bem, quando Warraca ouviu o relato de Maomé, concluiu que, de fato, o Anjo Gabriel o visitara e que ele (Maomé) era um profeta como Moisés.

Causa estranheza que Warraca não tenha percebido nada de diferente entre as “aparições” de Maomé e aquelas que o Novo Testamento narra acerca do Arcanjo São Gabriel; causa ainda maior espanto que ele, “cristão”, baseando-se apenas nesta estranha narração tenha dito que Maomé seria um profeta à semelhança de Moisés, como se, com a vinda de Nosso Senhor, houvesse ainda alguma necessidade de outra revelação e como se os cristãos não acreditassem que, após a morte do último apóstolo, as revelações públicas houvessem terminado. Assim, a imediata aceitação de Warraca da missão deste novo profeta torna toda a narrativa absolutamente inverossímil.

Pelos doze anos seguintes (até o ano de 622 d. C.), Maomé atuou como pregador na cidade de Meca, sofrendo forte oposição visto que sua pregação contrariava os interesses dos habitantes da cidade, cuja principal fonte de renda era a peregrinação de politeístas, que para lá se dirigiam no intuito de adorar seus deuses[2]. Ao término deste período, o sucesso de suas pregações foi decepcionante, sendo que seus seguidores se limitavam a poucas dezenas.

Foi então que algo aconteceu.

Alguns homens de Iatribe (uma cidade um pouco mais ao norte) convidaram Maomé para mudar-se para lá, no intuito de fazê-lo o chefe religioso da cidade. O profeta do Islã aceitou a oferta e saiu, com todos os seus seguidores, de Meca, lá se refugiando e na qual rapidamente assumiu o poder religioso e político. Esta ida de Maomé para Iatribe (que, posteriormente passou a ser chamada de Medina[3]) é conhecida por hégira, vindo a mudar radicalmente os rumos do Islã e, com isto, os rumos da história.

Após consolidar seu poder em Medina, Maomé passou a expandir sua área de influência, trazendo para debaixo de sua lei religiosa as mais diversas tribos árabes, aumentando imensamente seu poder.

No ano de 630 d.C., Maomé finalmente pôde se vingar dos habitantes de Meca, para lá se dirigindo com um exército de 10.000. Vendo que era inútil resistir-lhe, Meca se rendeu e permitiu que o novo líder dos árabes adentrasse na cidade sem que tivesse que recorrer à guerra. Maomé mandou matar alguns inimigos pessoais, baniu da cidade as imagens de seus ídolos e retornou a Medina, agora como senhor de quase toda a península árabe.

No ano de 632, Maomé vem a morrer. As circunstâncias de sua morte são de todo obscuras, mas o mais sólido relato dela se refere ao um envenenamento de que fora vítima quatro anos antes e de cujas consequências jamais se recuperou. Teria morrido em agonia, gritando sentir como se sua veia aorta estivesse sendo cortada, o que nos remete imediatamente à Sura 69, 44-47:

“44.E se (o Mensageiro) tivesse inventado alguns ditos, em Nosso nome,
45. Certamente o teríamos apanhado pela destra;
46. E então, Ter-lhe-íamos cortado a aorta,
47. E nenhum de vós teria podido impedir-Nos.”

Não deixa de ser curioso (aliás, muitíssimo curioso) que Maomé teria morrido exatamente da forma como disse que morreria se fosse um falso profeta...

Após sua morte, a comunidade islâmica foi assumida por califas, dos quais o primeiro foi Abu Bakr, pai de Aisha, a esposa preferida de Maomé. A Abu Bakr, sucedeu Omar; a este, sucedeu Uthman (que, como veremos, foi quem efetivamente teria ordenado a redação do Alcorão); e, a este, Ali. Com a morte trágica de Ali, a comunidade muçulmana se dividiu para sempre entre dois grupos rivais e que, até a presente data, se odeiam: os sunitas (partidários de Aisha) e os xiitas (partidários de Ali).

Mesmo divididos, os muçulmanos ergueram, em poucas décadas, um império imenso, com sucessivas vitórias militares ao ocidente e ao oriente, aproveitando a fraqueza tanto dos bizantinos quanto dos persas, que, tendo se combatido mutuamente por séculos, mutuamente enfraqueceram-se e não foram páreos para a ascensão dos árabes.

Esta, em resumo, a história de Maomé e dos primeiros muçulmanos.

Dito isto, é necessário esclarecermos que, para os muçulmanos, Maomé não é somente seu último profeta.[4] Ele foi alçado, dentro da visão islâmica, à condição de “modelo de conduta”, razão pela qual tudo o que ele fez (literalmente tudo) deve ser imitado e não pode ser questionado.

E isto, como se pretende mostrar nesta série de artigos, tem impacto profundíssimo no mundo islâmico até hoje.

Apenas para que o leitor tenha uma pequena ideia, Maomé casou-se com Aisha quando ela ainda tinha seis anos de idade. É verdade que ele esperou até que completasse 09 anos para consumar o casamento, mas, mesmo assim, quando de tal consumação, Aisha era ainda uma criança que não havia ainda atingido a adolescência e a maturidade sexual. Uma vez que esta foi a atitude do profeta dos muçulmanos, até hoje tal prática é comum no mundo islâmico, e qualquer tentativa de revê-la provoca imediato acesso de ira entre os muçulmanos. Pois tal revisão, implicitamente, equivaleria a dizer que o profeta estava errado em sua conduta. E, dizê-lo, afronta gravemente a fé islâmica.

Dada, pois, a centralidade da figura de Maomé para a religião islâmica, entendi ser necessário escrever as linhas acima. Tenha o leitor em vista que, para a compreensão os próximos artigos, este conhecimento mínimo é absolutamente imprescindível.

Em breve, falaremos de outro item central à fé islâmica: o Alcorão.





[1] Num conhecidíssimo haddith, a esposa principal de Maomé, Aisha, chega mesmo a dizer: (Oh, mensageiro de Allah), parece-me que teu Senhor se apressa em satisfazer teus desejos (Sahhi Muslim, vol. VII, 3453)
[2] Na verdade, não há evidências históricas de que Meca fosse, realmente, um centro de peregrinação à época em que Maomé supostamente teria vivido.
[3] De “al-Madina al-Nabi”, cuja tradução seria “a cidade do profeta”.
[4] Dentro da concepção islâmica, o Islã seria a religião original da humanidade. Os homens, contudo, afastam-se constantemente de Deus e passam a adorar ídolos. Por isto, Deus, enviou dezenas de milhares de profetas a todos os povos da terra para trazê-los de volta ao moneteísmo (cf. Sura 35, 24:  “Certamente te enviamos com a verdade e como alvissareiro e admoestador, e não houve povo algum que não tivesse tido um admoestador”). Todos os profetas pregaram a mesma mensagem islâmica, razão pela qual Maomé é, propriamente falando, o último profeta do Islã. Muito embora a ideia em si seja razoável, ela é flagrantemente desmentida pela história, visto que os tais anunciadores (profetas, como gostam de dizer) do monoteísmo simplesmente não existiram fora do judaísmo e do cristianismo.

* O autor é Juiz de Direito no Estado de São Paulo.

domingo, 13 de abril de 2014

"A Santa Missa" - Testemunho de Catalina Rivas - em áudio




Segue em áudio o livro escrito por Catalina Rivas, "A Santa Missa", com o testemunho deste grande Milagre, tal qual revelado a ela por Nossa Senhora.


Imprimatur de Mons. José Oscar Barahona C., 
Bispo de San Vicente (El Salvador, C.A.) 

“Li atentamente o impresso A Santa Missa, Testemunho de Catalina, Missionária leiga do Coração Misericordioso de Jesus, e não encontro nele nada contrário à Sagrada Escritura nem à doutrina da Igreja; pelo contrário, creio sinceramente que é um testemunho de sublime ensinamento sobre o mistério da Santa Missa. Recomendo vivamente sua leitura e meditação a sacerdotes e leigos para uma melhor compreensão e vivência do Santo Sacrifício do Altar” 

San Vicente, 2 de março de 2004






Texto completo disponível em: file:///C:/Users/Usuario/Downloads/ASantaMissa.pdf

domingo, 6 de abril de 2014

O Grande Milagre




A ausência dos católicos às Santas Missas também encontra motivação, dentre outras razões, na crescente ignorância quanto às finalidades e aos efeitos da Santa Missa. Por isso, não percamos de vista seu real significado.

 Neste post, tratamos a respeito. 

 Já conhecida de alguns, peço que assistam à animação O Grande Milagre.

Como informa o site http://www.salvemaliturgia.com/2013/01/o-grande-milagre-uma-animacao-que.html, "Todo o filme é baseado e feito a partir do Testemunho da Missionária Leiga do Coração Misericordioso de Jesus, Catalina Rivas, transcrito no livro "A Santa Missa", que tem o "Imprima-se!" do Bispo Ordinário:

Imprimatur de Mons. José Oscar Barahona C., Bispo de San Vicente (El Salvador)
"Li atentamente o impresso A Santa Missa, Testemunho de Catalina, Missionária leiga do Coração Misericordioso de Jesus, e não encontro nele nada contrário à Sagrada Escritura nem à doutrina da Igreja; pelo contrário, creio sinceramente que é um testemunho de sublime ensinamento sobre o mistério da Santa Missa. Recomendo vivamente sua leitura e meditação a sacerdotes e leigos para uma melhor compreensão e vivência do Santo Sacrifício do Altar."

San Vicente, 2 de março de 2004"

Segue:

sábado, 5 de abril de 2014

A Imitação de Cristo - Thomas de Kempis



O livro “A Imitação de Cristo” - escrito pelo padre Thomas Hemerken, nascido na cidade alemã de Kempen (na forma latina torna-se Kempis – daí “Thomas de Kempis”) – nos recorda a necessidade da centralidade em Nosso Senhor Jesus Cristo, da verdadeira conversão, voltada para o desapego do mundo e na Esperança do Céu.

A quarta parte do livro refere-se à Eucaristia. Ensina-nos como recebê-la, adorá-la e a como aproximar-se dela de maneira adequada. 

Como nos recorda o abençoado Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior, “‘A Imitação de Cristo’ deveria ser o livro de cabeceira de todo católico. Trata-se de uma espiritualidade válida, especialmente nesse tempo em que a Igreja, em vez de ser missionária e evangelizar o mundo, está sendo justamente "evangelizada" por ele. "A Imitação de Cristo" poderá, sem dúvida, ajudar a impedir a mundanização da Igreja e de cada um”.

 Abaixo, início do Livro Quarto – sobre a Eucaristia – com uma breve e salutar reflexão sobre o “Sacramento do Altar”:

LIVRO QUARTO
DO SACRAMENTO DO ALTAR
Devota exortação à sagrada comunhão
Voz de Cristo
Vinde a mim todos que penais e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei, diz o Senhor (Mt 11,78).
O pão que eu darei é a minha carne, pela vida do mundo (Jo 6,52).
Tomai e comei, este é o meu corpo, que será entregue por vós; fazei isto em memória de mim (Lc 22,19).
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim e eu nele (Jo 6,57).
As palavras que eu vos disse são espírito e vida (Jo 6,64).
CAPÍTULO 1
Com quanta reverência cumpre receber a Cristo
Voz do discípulo
1. São vossas essas palavras, ó Jesus, verdade eterna, ainda que
não fossem proferidas todas ao mesmo tempo, nem escritas no
mesmo lugar. Sendo vossas, pois, essas palavras e verdadeiras,
devo recebê-las todas com gratidão e fé. São vossas, porque vós
as dissestes; e são também minhas, porque as dissestes para
minha salvação. Cheio de alegria as recebo de vossa boca, para
que mais profundamente se me gravem no coração. Animam-se
palavras de tanta ternura, atemorizam-me os meus pecados, e
minha consciência impura me afasta da participação de tão altos
mistérios. Atraime a doçura de vossas palavras, mas me oprime a
multidão de meus pecados.
2. Mandais que me chegue a vós com grande confiança, se quero ter
parte convosco; e que receba o manjar da imortalidade, se desejo
alcançar a vida e glória eterna. Vinde, dizeis vós, vinde a mim
todos que penais e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Ó
palavra doce e amorosa aos ouvidos do pecador: vós, Senhor meu
Deus, convidais o pobre e indigente à comunhão de vosso
santíssimo corpo, mas quem sou eu, Senhor, para ousar
aproximarme de vós? Eis que os céus dos céus não vos pode
abranger, e dizeis: Vinde a mim todos!
1. Que quer dizer essa condescendência tão meiga e esse tão
amoroso convite? Como me atreverei a chegar-me a vós,
2. quando não conheço em mim bem algum em que me possa
confiar? Como posso acolher-vos em minha morada, eu, que
tantas vezes ofendi a vossa benigníssima face? Tremem os
anjos e os arcanjos, estremecem os santos e os justos, e vós
dizeis: Vinde a mim todos! Se não fosse vossa essa palavra,
quem a teria por verdadeira? Se vós o não ordenásseis,
quem ousaria aproximar-se?
3. Noé, o varão justo, trabalhou cem anos na construção da arca para
salvar-se com poucos: como me poderei eu preparar numa hora
para receber com reverência o Criador do mundo? Moisés, vosso
grande servo e particular amigo, fabricou a arca de madeira
incorruptível, e revestiu-a de ouro puríssimo, para guardar nela as
tábuas da lei; e eu, criatura vil, me atreverei a receber-vos com
tanta facilidade, a vós, que sois o autor da lei e o dispensador da
vida? Salomão, o mais sábio dos reis de Israel, levou sete anos a
edificar o templo magnífico, em louvor de vosso nome, e celebrou
por oito dias a festa de sua dedicação, ofereceu mil hóstias
pacíficas, e ao som das trombetas e com muito júbilo colocou a
arca da aliança no lugar que lhe havia sido preparado. E eu, o mais
miserável de todos os homens, como poderei receber-vos em
minha casa, quando mal sei empregar meia hora com devoção? e
oxalá que uma vez sequer a houvesse empregado dignamente!
4. Ó meu Deus, quanto se esforçaram esses vossos servos para
agradar-vos! Ai, quão pouco é o que eu faço! Quão pouco o tempo
que gasto em preparar-me para a comunhão! Raras vezes estou
de todo recolhido, raríssimo livre de toda distração. E, todavia, na
presença salutar de vossa divindade não me devia ocorrer
pensamento algum impróprio, nem eu me devia ocupar de criatura
alguma, pois vou hospedar, não a um anjo, senão ao Senhor dos
anjos.
5. Demais, há grandíssima diferença entre a arca da aliança com
suas relíquias e vosso puríssimo corpo com suas inefáveis
virtudes; entre aqueles sacrifícios da lei, que eram apenas figuras
do futuro, e o sacrifício verdadeiro de vosso corpo, que é o
cumprimento de todos os sacrifícios antigos.
6. Por que, pois, se me não acende melhor o meu coração na vossa
adorável presença? Por que me não preparo com maior cuidado
para receber vosso santos mistério, quando aqueles santos
patriarcas e profetas, reis e príncipes, com todo o povo, mostraram
tanta devoção e fervor no culto divino?
7. Com religioso transporte dançou o piedosíssimo rei Davi diante da
arca da aliança, em memória dos benefícios concedidos outrora a
seus pais; mandou fabricar vários instrumentos musicais, compôs
salmos e ordenou que se cantassem com alegria, e ele mesmo os
cantava muitas vezes ao som da harpa; ensinou ao povo de Israel
a louvar a Deus de todo o coração e angrandecê-lo e bendizê-lo
todos os dias, a uma voz. Se tanta era, então, a devoção e o fervor
divino diante da arca do testamento, quanta reverência e devoção
devo eu ter agora, e todo o povo cristão, na presença do
Sacramento e na recepção do preciosíssimo corpo de Cristo!
8. Correm muitos a diversos lugares para visitar as relíquias dos
santos, e se admiram ouvindo narrar os seus feitos; contemplam os
vastos edifícios dos templos e beijam os sagrados ossos,
guardados em seda e ouro. E eis que aqui estais presente diante
de mim, no altar, vós, meu Deus, Santo dos santos. Criador dos
homens e Senhor dos anjos. Em tais visitas, muitas vezes é a
curiosidade e a novidade das coisas que move os homens; e
diminuto é o fruto de emenda que recolhem, principalmente quando
fazem essas peregrinações com leviandade, sem verdadeira
contrição. Aqui, porém, no Sacramento do Altar, vós estais todo
presente, Deus e homem, Cristo Jesus; aqui o homem recebe
copioso fruto de eterna salvação, todas as vezes que vos recebe
digna e devotamente. Aí não nos leva nenhuma leviandade, nem
curiosidade ou atrativo dos sentidos, mas sim a fé firme, a
esperança devota e a caridade sincera.
9. Ó Deus invisível, Criador do mundo, quão maravilhosamente nos
favoreceis, quão suaves e ternamente tratais com vossos
escolhidos, oferecendo-vos a vós mesmo como alimento, neste
Sacramento! Isto transcende todo entendimento, isto atrai os
corações dos devotos e acende o seu amor. Porque esses teus
verdadeiros fiéis, que empregam toda a sua vida na própria
emenda, recebem muitas vezes deste augusto Sacramento
copiosa graça de devolução e amor à virtude.
10. Ó graça admirável e oculta deste Sacramento, que só dos fiéis de
Cristo é conhecida, mas que os infiéis e escravos do pecado não
podem experimentar! Neste Sacramento se dá a graça espiritual,
recupera a alma a força perdida, refloresce a formosura deturpada
pelo pecado. Tamanha é, às vezes, esta graça, que, pela
abundância da devoção recebida, não só a alma, mas ainda o
corpo fraco sente-se munido de maiores forças.
11. É, porém, muito para chorar e lastimar a nossa tibieza e
negligência, o pouco fervor em receber a Jesus Cristo, em quem
reside toda a esperança e merecimento dos que se hão de salvar.
Porque ele é a nossa santificação e redenção, ele
o consolo dos peregrinos e o gozo eterno dos santos. E assim é muito
pra chorar o pouco caso que tantos fazem deste salutar mistério,
sendo ele a alegria do céu e a conservação de todo o mundo. Ó cegueira e
dureza do coração humano, que tão pouco estima esse dom inefável,
antes, com o uso cotidiano que dele faz, chega a cair na indiferença!
13. Pois, se esse augusto Sacramento se celebrasse num só lugar e
fosse consagrado por um só sacerdote no mundo, com quanto desejo
imaginas que acudiriam os homens a visitar aquele lugar e aquele
sacerdote a fim de assistir à celebração dos divinos mistérios? Agora,
porém, há muitos sacerdotes, e em muitos lugares Cristo é oferecido,
para que tanto mais se manifeste a graça e o amor de Deus para com os
homens, quanto mais largamente é difundida pelo mundo a sagrada
comunhão. Graças vos sejam dadas, bom Jesus Pastor eterno, que vos
dignais sustentar-nos a nós, pobres e desterrados, com vosso precioso
corpo e sangue, e até convidar-nos, com palavras de vossa própria boca,
à participação desses mistérios, dizendo: Vinde a mim todos que penais

e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei.