Razão e Fé

"A tradição católica desde o início rejeitou o assim chamado fideísmo, que é a vontade de crer contra a razão. Creio quia absurdum (creio porque é absurdo) não é fórmula que interpreta a fé católica. Deus, na verdade, não é absurdo, mas sim é mistério. O mistério, por sua vez, não é irracional, mas uma superabundância de sentido, de significado, de verdade. Se, olhando para o mistério, a razão vê escuridão, não é porque no mistério não tenha a luz, mas porque existe muita (luz). Assim como quando os olhos do homem se dirigem diretamente ao sol para olhá-lo, veem somente trevas; mas quem diria que o sol não é luminoso, antes a fonte da luz? A fé permite olhar o “sol”, Deus, porque é acolhida da sua revelação na história e, por assim dizer, recebe verdadeiramente toda a luminosidade do mistério de Deus, reconhecendo o grande milagre: Deus se aproximou do homem, ofereceu-se ao seu conhecimento, consentindo ao limite criador da sua razão (cfr Conc. Ec. Vat. II, Cost. Dogm. Dei Verbum, 13). Ao mesmo tempo, Deus, com a sua graça, ilumina a razão, abre-lhe horizontes novos, imensuráveis e infinitos. Por isto, a fé constitui um estímulo a buscar sempre, a não parar nunca e nunca aquietar-se na descoberta inesgotável da verdade e da realidade. É falso o pré-juízo de certos pensadores modernos, segundo os quais a razão humana seria como que bloqueada pelos dogmas da fé. É verdade exatamente o contrário, como os grandes mestres da tradição católica demonstraram. Santo Agostinho, antes de sua conversão, busca com tanta inquietação a verdade, através de todas as filosofias disponíveis, encontrando todas insatisfatórias. A sua cansativa investigação racional é para ele uma significativa pedagogia para o encontro com a Verdade de Cristo. Quando diz: “compreendas para crer e creias para compreender” (Discurso 43, 9:PL 38, 258), é como se contasse a própria experiência de vida. Intelecto e fé, antes da divina Revelação, não são estranhas ou antagonistas, mas são ambas duas condições para compreender o sentido, para transpor a autêntica mensagem, se aproximando-se do limite do mistério. Santo Agostinho, junto a tantos outros autores cristãos, é testemunha de uma fé que se exercita com a razão, que pensa e convida a pensar. Neste sentido, Santo Anselmo dirá em seu Proslogion que a fé católica é fides quaerens intellectum, onde o buscar a inteligência é ato interior ao crer. Será sobretudo São Tomás de Aquino – forte nesta tradição – a confrontar-se com a razão dos filósofos, mostrando quanta nova fecunda vitalidade racional vem ao pensamento humano do acoplamento dos princípios e da verdade da fé cristã." (Trecho da Catequese de Bento XVI - Racionalidade da fé em Deus - 21/11/2012)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Como era a confissão com o Santo Padre Pio?


Como era a confissão com o Santo Padre Pio?

Padre Pio tinha o Carisma de Conhecer o interior das pessoas a consciência.

            “Aquelas a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, ser-lhe-ão retidos”. (Jo 20,23)
Essas palavras de Jesus eram bem impressas no coração de Padre Pio, unicamente pela percepção de ter de ser ministro da Misericórdia Divina. Mas sabia se podia absolver ou não absolver, segundo a disposição do penitente.
Era severo com os curiosos, hipócritas e mentirosos, e amoroso e compassivo com os verdadeiramente arrependidos.

Seu confessionário não era uma máquina de absolvições, mas um lugar de conversas. Queria que o arrependimento por todos os pecados, quer mortais ou veniais, fosse verdadeiro. Nisto era clara sua percepção de absoluta santidade de Deus, da necessidade que a alma chegasse ao Juízo, purificada nesta Terra, além de estado de Graça, porque sabia bem como são grandes as penas do Purgatório.
        
Ficaram conhecidos vários casos de pessoas que, confessando, acusavam-se assim:
-“Padre, eu cometi pecadinhos usuais, as besteiras de sempre....”.
E ele, irredutível:
- “Pecadinhos? Besteira ofender a Deus? Vá embora”, e naquele momento não havia nada a ser feito.
         Suas confissões são como atos de anúncio e de salvação, de dor e de glória, de reprimenda e de amor.

Atesta uma carta de Foggia, em 23 de agosto de 1916:
         “Deveria saber que não me deixaria um momento livre: um turbilhão de almas sedentas de Jesus me desabam, antes mesmo de colocar as mãos nos bolsos” (Ep. I).
         Ele se prodigaliza com a evidente certeza que o confessionário é um tribunal de Misericórdia Divina, mas ao mesmo tempo a sofrida função da caridade sacerdotal.
        
Para um penitente, disse:
         “Não vê como está escuro? Vá colocar as coisas no lugar, muda de vida e depois volta que eu te confesso”.
         Padre Tarcisio, presenciou a cena, ficou abatido por aquela resposta, mas Padre Pio lhe disse:
         “Se tu soubesses como essas situações ferem primeiro o meu coração! Mas se fosse assim, muitos não se converteriam a Deus...”.
         Muitas vezes repetia:
         “Gerei-lhe no amor e na dor”. Eu posso também golpear os meus filhos, mas choro por todos os que me procuram! Quero carregá-los sem resistência, como uma pipa”.

Levava ao coração dos penitentes, esperança e fidelidade no perdão divino. Escreveu:
         “Você não tem tempo de amar o Senhor? Não O ama ainda? Não deseja amá-Lo para sempre? Não tenha medo por isso! Mesmo admitindo que você tenha cometido todos os pecados deste mundo, Jesus te repete: ‘são-te perdoados muitos pecados, porque muito você amou”’ (Ep.III).
         E mais uma vez:
         “Tenho como certo que Deus pode regenerar tudo em uma criatura concebida no pecado e que carrega a carga hereditária permanente de Adão: mas não pode, absolutamente, rejeitar o desejo sincero de amá-Lo” (Ep. IV).
        
Uma alma que lhe pedisse o que fosse no confessionário, respondia:
“O trono deve ser a maestria de Deus”.
A um jovem que chorava, Padre Pio perguntou:
- “Por que chora?”.
    Respondeu:
- “Porque não me deu absolvição”.
   Com carinho, Padre Pio consolou-o:
“Filho, é assim, a absolvição não te foi negada para mandá-lo ao inferno, mas ao paraíso”.
        
O cardeal Lercaro, durante o Congresso Eucarístico diocesano de Trapani, em 1969, celebrando o padre, disse:
         “O confessionário era para ele um manancial de sofrimento interior, espiritual: a sua paixão. O pecado pesava sobre ele, o pecado que ele escutava, contestava e reprovava, por chamar a si aquela misericórdia de Deus; o pecado, que em nome de Deus perdoava, era uma ferida em sua alma... Ele unia seu sofrimento ao de Cristo para que a culpa dos irmãos fossem perdoadas”.
        
A sede de almas o fazia rezar também longas noites de vigília. Um confrade é testemunha de sua súplica:
         “Jesus, Maria, piedade!”; “Oh, Jesus, te recomendo aquela alma, deve convertê-la, salvá-la...Se tiver que castigar os homens, castiga-me, ficarei feliz... Ofereço-me por inteiro a Ti, por todos eles”.
        
Padre Pio costumava dizer:
         “Se soubessem quanto custa uma alma! As almas não foram dadas de presente: foram compradas! Vocês ignoram aquilo o que custaram a Jesus. Ora, precisam pagar-Lhe sempre com a mesma moeda?”.
        
Escreveu ao padre Benedeto em 3 de junho de 1919:
         “Todo o tempo é curto para libertar os irmãos das garras de Satanás. Bendito seja Deus... A maior caridade é aquela de tirar as almas de Satanás e ganha-las a Cristo. E neste ponto, sigo assiduamente, de noite e de dia... vi esplêndidas conversões” (Ep.I).
        
E tinha um verdadeiro propósito. Muitos de nós se confessa com rapidez, quase como um hábito. Com ele isso não era possível.
Uma vez um jovem disse:
-“Sabe? Tive que voltar três vezes para que Padre Pio me desse a absolvição. Eu não entendi porque me mandava ir embora; eu parecia ser sincero, arrependido. Na terceira vez havia em mim uma certa decisão para corrigir-me de um defeito. Sem que dissesse nada, o padre foi breve e me liberou”.
Ele podia fazer coisas assim porque se demorava muito, mas nem a todos era possível. Em algumas Missas, se alguém, após ter se confessado, precisasse de confessar novamente, deveria esperar passar ao menos sete dias. Sim, porque muitos voltavam a San Giovanni até serem absolvidos.
        
Este é um fato que merece um aprofundamento maior. Muitas vezes seus confrades faziam observações a este respeito, recomendando-lhe que desse alguma indulgência. Mas ele respondia: “O faço para o bem dele; não acredita que eu sofro também? Mas se tu soubesses como ficam depois, como não sossegam!”.
         Há, casos de pessoas que partiram de San Giovanni Rotondo revoltados contra o Padre Pio por não terem obtido a absolvição, decididas a não voltarem mais. Mas depois entendiam, logo em seguida, e sentiam um desejo quase irresistível de retornar.
        
Padre Pio amava o pecador, mas era intransigente com o pecado. Eram típicas certas frases suas: “Asseguro, tu vais para o inferno”; “Quando deixarás de fazer porcarias?”; “Não sabes que é pecado mortal? Vai embora!”. A multidão implorava, insistia, mas era difícil que mudasse de opinião daquela vez. Não guardava a fisionomia de ninguém: rico ou pobre, bonito ou feio, ele guardava as almas. Todos em fila, iguais, fosse um ministro ou um operário.
        
Muitos haviam dito:
“Que semelhança deve ter como o juízo de Deus, com as almas todas descobertas”. Um fator humano também contribuía: com a freqüência espera longa, de dias ou mesmo de semanas, havia a necessidade de serem breves, pelo grande fluxo, de modo que as pessoas preparassem bem o que iriam dizer. Era o momento de pensar, passar e repassar o próprio discurso.
         Se sabia, e diziam, que ele era dulcíssimo quando alguém estava realmente arrependido; prático em guiar as almas dizendo algum elogio; paciente, logo após a confissão, ainda escutava. Certamente, trabalhava muito com a Graça de Deus para predispor as almas, para fazê-las compreender a gravidade do pecado.

         Do Padre Pio confessor ficou impresso o gesto solene como qual dava a bênção pronunciando as palavras de absolvição. Todos os sacerdotes absolvem; mas a absolvição através de Padre Pio trazia uma paz que era um verdadeiro dom de Deus. Muitas vezes, com um pequeno gesto. Um sacerdote entendia ver, enquanto Padre Pio levantava a mão, uma pequena gota de sangue que se acendia no meio da chaga; ele percebeu um grande significado; deve ter sentido o quanto custava ao padre as confissões.


Fonte: http://www.derradeirasgracas.com/2.%20Segunda%20P%C3%A1gina/O%20Santo%20Padre%20%20Pio.htm


A destruição arquitetada por um anjo - A lenta e gradual construção da “cidade dos homens” é obra de uma inteligência angélica


A destruição arquitetada por um anjo


A lenta e gradual construção da “cidade dos homens” é obra de uma inteligência angélica
Em uma das muitas alocuções que proferiu, o Papa Pio XII indicou o caminho que o demônio pavimentou, ao longo da história, para destruir o homem, criado à “imagem e semelhança” de Deus [1]:
“Ele se encontra em todo lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graça, a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes a autoridade sem a liberdade. É um ‘inimigo’ que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como as principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um direito sem Deus, uma política sem Deus. O ‘inimigo’ tem trabalhado e trabalha para que Cristo seja um estranho na universidade, na escola, na família, na administração da justiça, na atividade legislativa, na assembleia das nações, lá onde se determina a paz ou a guerra.” [2]
A primeira coisa que Pio XII faz é colocar as pessoas diante do “nemico”. O Papa quer convencer os homens de que a obra de destruição que se apresenta aos seus olhos não é fruto do acaso ou, como pregam os progressistas, do zeitgeist – o “espírito dos tempos”. Trata-se, de verdade, de um empreendimento demoníaco. Há, por trás de toda a confusão e barbárie deste e de outros séculos, uma inteligência angélica, que, desde que caiu, trabalha incessantemente para perverter a obra da Criação e fazer perder as almas que Cristo conquistou com o Seu sangue, na Redenção.
Como explicar que o projeto de um anjo se torne tão concreto e visível no decorrer da história, só é possível a partir dos agentes humanos que, juntamente com o demônio, bradaram “non serviam”, a fim de servirem ao mal. Embora seus destinos eternos estejam nas mãos de Deus – e só Ele possa dizer se o “oitavo sacramento”, a ignorância invencível, os salvou –, suas obras humanas denunciaram clamorosamente sua identidade. Do Imperador Nero, no século I, passando pelos iluministas anticristãos, até Karl Marx e seus seguidores, muitos foram os homens que aderiram abertamente ao projeto do mal e muitos foram os passos dados rumo ao “amor de si até ao desprezo de Deus” [3].
É verdade que, hoje, tantas coisas más e perversas que os homens cometem ganham gentilmente outros nomes. Hoje sequer se ouvem mais as palavras “pecado” ou “erro”. Todas as ações humanas transitam entre o “conveniente” e o “socialmente inapropriado”, entre o “agradável” e o “politicamente correto”. Só que nem mil jogos de palavras podem mudar ou desfazer a realidade das coisas. Conscientemente ou não, quem quer que trabalhe para implantar no mundo um “sistema de pecado” – como é o caso de organizações que financiam o aborto, de grupos que querem a destruição da família e de religiosos que pedem a implantação de uma religião única e mundial, sem Cristo e sem a Igreja – está trabalhando para Satanás.
As palavras não são exageradas. O próprio Jesus não poupou palavras para denominar os mentirosos: “Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai”. Semelhantes palavras podem ser dirigidas a quem, obstinado no mal, opera incansavelmente para defender a morte e a mentira, obras daquele “era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade” [4].
É verdadeiramente monstruosa a construção – ou a destruição – que os filhos das trevas fazem no mundo. No entanto, não é sadio que os cristãos se detenham diante dessa imensa Babel, nem que cruzem os braços, inertes. Afinal, “todas as coisas” – inclusive a ação dos anjos decaídos – “concorrem para o bem dos que amam a Deus” [5]. Os filhos de Deus não devem temer: nas batalhas desta vida, são guiados e amparados por “aquela misteriosa presença de Deus na história, que é a Providência” [6].

Referência

  1. Gn 1, 26
  2. Pio XII, Discorso agli uomini di Azione Cattolica, 12 ottobre 1952
  3. Santo Agostinho, De Civitate Dei, 14, 28
  4. Jo 8, 44
  5. Rm 8, 28
  6. Centesimus Annus, 59
Fonte: https://padrepauloricardo.org/blog/a-destruicao-arquitetada-por-um-anjo

terça-feira, 24 de junho de 2014



O blog publica algumas notas/reflexões de Alexandre Semedo de Oliveira*, sobre temas diversos:



- Realidade, teorias, razão, capitalismo e socialismo

Chesterton, em seu livro Ortodoxia, disse que, ao contrário do que pensamos, o louco não é alguém que perdeu a razão, mas alguém que perdeu tudo, menos a razão. O verdadeiro louco é aquele que perdeu o contato com a realidade e que vive imerso em seu mundinho teórico. 

E, justamente por isto, é impossível convencê-lo do que quer que seja.

Ao dizer isto, Chesterton ilustrou, ao meu ver magistralmente, a situação intelectual do Ocidente ao menos de Kant para cá. O homem ocidental vive em torno de teorias e não se preocupa, minimamente, em confrontá-las com o mundo real. 


Somente isto pode explicar o porquê de, sendo tão evidente que o comunismo é um sistema intrinsicamente mal (e de resultados concretamente desastrosos) tantos ainda o apoiam. Como na teoria ele promete um mundo lindo, no qual todos são iguais, as pessoas que embarcam nesta bobagem fazem das tripas coração para defender a teoria (o socialismo é melhor que o capitalismo), sem jamais olhar para a realidade que a desmente da forma mais brutal possível (em qualquer país em que o comunismo se tornou a regra, as pessoas vivem a vida mais miserável que se possa imaginar, e, se possível, fariam de tudo para deixar o inferno no qual estão imersas).


Mas é o que eu digo: nada mais difícil do que convencer o Inri de que ele não é Jesus Cristo de verdade...


- Amor à Verdade, fatos e teorias, criminalidade

Caríssimos,

O ocidente se construiu sob uma premissa fundamental: verdade conhecida, verdade obedecida. Uma teoria só valia se confirmada pela realidade das coisas. Bastava que um homem sério fosse posto diante de um fato real para que, se necessário, mudasse seus conceitos, adequando-os à realidade mesma que lhe era apresentada.

Ao menos desde Kant, contudo, isto mudou. A realidade não nos importa mais. Agarramo-nos a teorias e somente a elas. Mesmo que os fatos as desmintam. Mesmo que as seguir sustentando represente, na prática, um suicídio.

Fôssemos pessoas que se curvam à realidade dos fatos, apenas esta verdade noticiada (Brasil tem 11 das 30 cidades mais violentas do mundo – linkpara notícia) já deveria bastar para que mudássemos toda nossa forma de enfrentar a criminalidade.

Porém, tudo seguirá como antes. Disto eu tenho certeza.

Mesmo diante deste quadro, surgirão vozes reafirmando que o problema é de cunho social. "Especialistas" dirão que, se tratarmos bem os bandidos, se buscarmos não sua punição (não sei porque parece absurdo a muitos que o Direito Penal vise punir os criminosos), mas sua ressocialização, que se diminuirmos a população carcerária e que se dermos tudo de graça para todos, então a violência diminuirá.

Novamente, digo que muitos se apegarão a teorias e desprezarão solenemente a realidade.

Mas a realidade é esta: talvez o Brasil seja o país mais perigoso para se viver no mundo. Depois de décadas de políticas imbecis e idiotas, depois de décadas de sentenças e acórdãos lenientes (reconheçamos nossas culpas), depois de décadas do assistencialismo mais rastaquera que se possa imaginar, a sociedade brasileira está ruindo, corrompida desde dentro em todos os valores morais.

Isto, contudo, não abalará nem um pouco a confiança dos que seguem conduzindo o país para a catástrofe, sejam eles políticos, juízes ou formadores de opinião.


 Propaganda anticristã – Sobre reportagem recente que aponta que papiro que faz menção à “mulher” de Jesus não é falso – link para reportagem

Ó céus! Mais do mesmo!


É só se aproximarem as festas cristãs do Natal e da Páscoa que, ano após ano, a mídia ocidental vai bombardear os pobres dos cristãos som seus factóides e com suas reportagens sensacionalistas.

Uma vez que somos todos juízes, acho que entendemos muito bem a diferença entre uma falsidade material e uma ideológica. Ainda que o papiro não seja materialmente falso, a questão é saber se a informação nele contida é minimamente confiável. Porque, se for falsa, o papiro será falso do mesmo jeito.

É óbvio que não existe a mais vaga razão para que se desprezem textos cristãos do primeiro século nos quais se atesta a veracidade dos acontecimentos do Evangelho, ao mesmo tempo que se incensem papiros muito mais tardios, escritos em círculos gnósticos cujo comprometimento com a verdade histórica é rigorosamente nenhum.

Até mesmo Bart Ehrman, possivelmente o estudioso da atualidade mais crítico do Novo Testamento, reconhece que a crença dos cristãos na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo remonta, aos primeiros anos do cristianismo.

Existem literalmente milhões de cópias de manuscritos dos primeiros três séculos que nos permitem saber, com certeza, que o texto do Novo Testamento original é aquele que temos hoje e que qualquer teoria de que eles tenham sido corrompidos não passa de mera especulação.

Todas estas evidências são solenemente desprezadas.

Mas, basta surgir um testozinho de um papiro do século sexto (ou do século nono) para que a propaganda anticristã se renove.


- “Jesus histórico” 

O grande problema de toda esta celeuma por detrás da busca do "Jesus histórico" é que ela parte do pressuposto que o Personagem do Novo Testamento não é histórico para chegar-se à conclusão de que Ele é apenas um mito. Toma-se por provado o que se quer provar, sendo que o leitor comum não percebe esta armadilha.

O fato, contudo, é que a grande dispersão de cópias antigas do Novo Testamento e a imensidade de manuscritos que chegaram até nós é o que de mais sólido historicamente falando temos acerca de uma pessoa que tenha vivido no mundo antigo. Se não pudermos tomar os quatro Evangelhos como narrativas históricas, teremos que admitir que nada sabemos nem podemos saber de ninguém ou de fato algum que tenha acontecido talvez até o advento da imprensa.

O ceticismo que este pessoal emprega quanto ao texto dos Evangelhos não é empregado para rigorosamente mais nenhum documento do mundo antigo. E isto tem uma razão: se admitissem que os Evangelhos são fidedignos, então, teriam que admitir que o Homem nele retratado perfez os maiores milagres de que já se ouviu falar, ressuscitando mortos, andando sobre água, acalmando tempestades com um mero gesto. Teriam que admitir que Ele morreu numa Cruz e que Seus discípulos O viram três dias depois, ressuscitado (coisa que mesmo Reza Aslam, um historiador muçulmano engajado em denegrir a imagem de Jesus Cristo, admite). Teriam que admitir que Ele afirmou ser Deus em pessoa e que apenas quem n’Ele cresse é que tem salvação.

E, admitindo isto, teriam que mudar radicalmente suas vidas.

Daí o ceticismo exacerbado: ele é fruto de uma necessidade apriorística de negar um fato seja lá com que argumentos for.

É muito bom lembrar-se disto sempre que factóides como este surgirem na imprensa.


- Proposta de deputado estadual mineiro para a reserva de 10% das vagas, em concursos públicos do Estado de Minas, a dependentes químicos - link para reportagem.

Para alguns, a ideia pode parecer imbecil, mas, na verdade, não é. É apenas perversa. Talvez haja imbecis que a aprovem, mas quem quer que seja que a tenha concebido não é exatamente um ser desprovido de cérebro; é desprovido de moral.

Uma boa lei deve incentivar as virtudes e coibir os vícios. Uma lei que claramente premia um vício é destinada a ser mais um passo rumo à tão sonhada corrupção absoluta da sociedade brasileira, como manda a revolução de que tanto temos falado.

Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: a reserva de vagas valerá para concursos para a polícia, para o MP e para a Magistratura?


- Sobre direitos humanos e o Estado Moderno

Dizer que os direitos humanos nasce com os Estados Modernos é uma patente bobagem. Os intelectuais brasileiros parecem não perder a mania de achar que o Estado é fonte de tudo.

Ora, se os direitos são humanos (inerentes à pessoa humana) eles pré-existem aos Estados Modernos, e a fonte deles não é nenhuma organização política nem qualquer legislação: a fonte deles (ora bolas) está na própria natureza do homem. Mas já viu, né: admitir isto seria abrir espaço para um questionamento absolutamente incômodo para qualquer "intelectual" moderno: qual a natureza humana e quem (aliás, Quem) a constituiu?


E, como magistrado, não tenho nenhuma "crença inabalável" na humanidade (acreditar nisto depois de tudo o que aconteceu no século XX é fechar os olhos para a realidade das coisas). Ao contrário, penso (como já disse) que temos uma tendência inata ao mal. Esquecer-se de tal tendência é o que tem permitido, aí sim, desde o surgimento dos estados Modernos, todo tipo de despotismo e de barbaridades.


- Sobre o Evolucionismo

Antes que a questão se transforme em mais um celeuma quilométrico, deixem-me esclarecer o que eu penso.

a) Existe um debate científico acerca do evolucionismo (e ele está facilmente acessível a todos nestes tempos de internet). Tanto os defensores da ideia quanto os detratores dela apontam para determinadas evidências, sem que qualquer dos lados aponte para provas definitivas.

b) Assim, tudo o que nos é possível é, honestamente, conhecer os argumentos de ambos os lados e apontar quais aqueles que nos convencem, sem jamais termos a pretensão de dar, nós mesmos, uma palavra definitiva sobre o assunto.


c) Por exemplo, pessoalmente entendo que a existência das chamadas complexidades irredutíveis, o fato da explosão de vida ocorrida no período pré-cambriano e a completa ausência de registro fóssil que comprove qualquer evolução de uma espécie à outra são argumentos muito mais convincentes contra a evolução do que qualquer coisa que eu já tenha ouvido dos evolucionistas. Da mesma forma, argumentos metafísicos ("o menos complexo nunca gera o mais complexo", razão pela qual seria muito mais plausível que o macaco fosse uma degeneração do homem do que o homem uma evolução do macaco) são extremamente convincentes para mim.


Por outro lado, argumentos como o que apela para a existência de órgãos aparentemente sem função ou para a semelhança embrionária das mais diversas espécies, parecem-me extremamente fracos e sacados na base do se non è vero, è bene trovato, o que me faz pensar que a razão está do lado dos que dizem que não houve evolução alguma.


d) Contudo, por ser pessoalmente incapaz de checar, por exemplo, se as complexidades irredutíveis realmente existem, penso que não posso ter a pretensão de uma opinião definitiva sobre o assunto. Apenas conversar amistosamente sobre ele.


Se alguém aqui (além de ser um juiz, e que, portanto, sabe tudo de leis - como  acham nossos familiares) realmente se achar com competência científica para emitir um verdadeiro juízo definitivo acerca da matéria, então, por favor, identifique-se e diga em qual Comarca trabalha, para que eu possa pessoalmente dirigir-me até lá para pedir um autógrafo.



Sobre o decreto 8.243/14, do Executivo Federal, que cria a PNSP – Política Nacional de Participação Social e o Sistema Nacional de Participação Social

É bastante significativo o comentário de um dos textos sugeridos por você sobre Marcuse (tradução minha): 

"Marcuse considerava a tolerância tradicional como 'tolerância repressiva', que precisava ser substituída pela 'tolerância libertadora'.
Resumidamente, a tolerância libertadora envolvia a 'intolerância contra os movimentos da direita e tolerância para com os de esquerda.' Os Movimentos da Esquerda incluíam o ativismo de vários grupos, que Marcuse encorajava a se identificarem como oprimidos,
incluindo os homossexuais, mulheres, negros e imigrantes. Somente os grupos minoritários, como estes, poderiam ser considerados objetos legítimos de tolerância."

Tome-se este texto e releia-se o decreto do PNSP, no qual se diz que um dos objetivos é o de "desenvolver mecanismos de participação social acessíveis aos grupos sociais historicamente excluídos e aos vulneráveis”.

Bem, as bases para quem quiser investigar o que realmente está acontecendo estão bem dadas. E repito: que cada um tire suas próprias conclusões. As minhas, com certeza, eu já tirei.


- Ciência, Verdade e Santo Sundário

Um dos problemas com a tua abordagem é que ela parece supor que quem defende determinadas posições é, necessariamente, um analista enviesado e, portanto, indigno de credibilidade. Porém, quem defende outras, em nome da "ciência", é, necessariamente, imparcial e aborda determinados temas com uma absoluta neutralidade.


Mas não é assim. Infelizmente, muitos (provavelmente a maioria) dos cientistas têm um compromisso com uma visão de mundo materialista e, portanto, devemos ter com determinadas conclusões vindas deles a mesma cautela que você parece ter com conclusões vindas de outros grupos.  Gosto muito de citar um discurso de um biólogo, Richard Lewontin:

“Nós ficamos do lado da ciência, apesar do patente absurdo de algumas de suas construções, apesar de seu fracasso para cumprir muitas de suas extravagantes promessas em relação à saúde e vida, apesar da tolerância da comunidade científica em prol de teorias certamente não comprovadas, porque nós temos um compromisso prévio, um compromisso com o materialismo. Não que os métodos e instituições da ciência de algum modo compelem-nos a aceitar uma explicação material dos fenômenos do mundo, mas, ao contrario, somos forçados por nossa prévia adesão ao conceito materialista do universo a criar um aparato de investigação e um conjunto de conceitos que produzam explicações materialistas, não importa quão contraditórias, quão enganosas e quão mitificadas para os não iniciados. Além disso, para nós o materialismo é absoluto; não podemos permitir que o "Pé Divino" entre por nossa porta." (New York Reviews of Books, maio de 1987 - negritos nossos). 

Portanto, devemos sempre ter cuidado com o que lemos e com as fontes que pesquisamos, sejam elas religiosas, sejam materialistas, sejam, enfim, de pessoas que se dizem neutras. A ciência é maravilhosa; infelizmente, os cientistas, contudo, são tão falhos e compromissados com um determinado ponto de vista quanto qualquer outra pessoa.
 (...)
O Santo Sudário pura e simplesmente não pode ser uma “fraude medieval” porque os detalhes mais convincentes do Crucificado nele existentes somente são visíveis em negativo. Isto exclui qualquer possibilidade de que uma mente malvada da Idade Média tenha confeccionado o pedaço de linho para enganar a nós, pobres homens do século XXI.

Além disto, os detalhes que surgem na imagem em negativo acerca da crucifixão simplesmente não eram conhecidos da época em que supostamente a fraude teria ocorrido.

Na verdade, o único argumento de peso contra a veracidade do Santo Sudário que eu conheço é a datação de carbono 14 feita, parece-me, na década de 80 do século passado. Contudo (e sem querer adentrar aqui no problema intrínseco deste método de datação) mesmo um dos cientistas que participou da pesquisa reconheceu que houve um problema com ela, visto que o pedaço de tecido retirado do Santo Sudário havia sido reconstituído por religiosas no século XV (ou XVI, não me recordo agora) após um incêndio que danificou as pontas. Todo o caminho traçado por este cientista desde sua participação na pesquisa até o seu reconhecimento do erro é que foi o objeto do documentário de que eu disse (e, como você sabe, o Natgeo não é exatamente um canal preocupado em defender o cristianismo).
(...)
 Indico apenas, como começo de pesquisa, o site http://www.santo.sudario.nom.br/
(...)
Na verdade, todo o documentário gira em torno do fracassado teste de carbono 14 (a única objeção séria levantada em face do Sudário) e de como um dos cientistas envolvidos (Dr. Raymond Rogers), MUITO A CONTRAGOSTO, chegou à conclusão de que o teste não teve qualquer validade na datação, visto que feito em pedaços de pano reconstituído no século XVI.

A honestidade intelectual do Dr. Raymond foi tamanha que, mesmo com câncer e sabendo ter pouco tempo de vida, fez questão de gravar seu depoimento e de pedir a amigos cientistas que levassem adiante suas pesquisas para tirar qualquer dúvida. 
E adivinhe qual foi a conclusão deste amigos? 
(...)

...terias, por acaso, alguma explicação para o fato de que os detalhes da crucificação somente aparecem em negativo e de como poderia um medieval elaborar tamanha e tão fenomenal fraude? 


* O autor é Juiz de Direito no Estado de São Paulo

domingo, 25 de maio de 2014

Santa Catarina de Génova

PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011


Santa Catarina de Génova
Prezados irmãos e irmãs!
Hoje gostaria de vos falar de outra santa que tem o nome de Catarina, depois de Catarina de Sena e Catarina de Bolonha; falo de Catarina de Génova, conhecida sobretudo pela sua visão sobre o purgatório. O texto que descreve a sua vida e o seu pensamento foi publicado nessa cidade da Ligúria em 1551; ele é dividido em três parte: a Vida propriamente dita, a Demonstração e declaração do purgatório — mais conhecida como Tratado — e o Diálogo entre a alma e o corpo (cf. Livro da Vida admirável e da doutrina santa, da beata Catarina de Génova, que contém uma útil e católica demonstração e declaração do purgatório, Génova, 1551). O redactor final foi o confessor de Catarina, o sacerdote Cattaneo Marabotto.
Catarina nasceu em Génova, em 1447; última de cinco filhos, ficou órfã do pai, Giacomo Fieschi, ainda em tenra idade. A mãe, Francesca di Negro, dispensou uma válida educação cristã, a tal ponto que a maior das duas filhas se tornou religiosa. Com 16 anos, Catarina foi concedida como esposa a Giuliano Adorno, um homem que, depois de várias experiências comerciais e militares no Médio Oriente, tinha regressado a Génova para casar. A vida matrimonial não foi fácil, também devido à índole do marido, apaixonado pelo jogo de azar. Inicialmente, a própria Catarina foi induzida a levar um tipo de vida mundana em que, contudo, não conseguia encontrar a serenidade. Depois de dez anos, no seu coração havia um profundo sentido de vazio e de amargura.
A conversão teve início a 20 de Março de 1473, graças a uma experiência singular. Tendo ido à igreja de são Bento e ao mosteiro de Nossa Senhora das Graças para se confessar, ajoelhou-se diante do sacerdote e «recebeu — como ela mesma escreve — uma chaga no coração, de um imenso amor de Deus», com uma visão tão clarividente das suas misérias e dos seus defeitos e, ao mesmo tempo, da bondade de Deus, que quase desmaiou. Foi tocada no coração por este conhecimento de si mesma, da vida vazia que ela levava e da bondade de Deus. Desta experiência derivou a decisão que orientou toda a sua vida, expressa com estas palavras: «Basta com o mundo e com os pecados» (cf. Vida admirável, 3rv). Então Catarina fugiu, suspendendo a Confissão. Voltou para casa, entrou no quarto mais escondido e chorou prolongadamente. Naquele momento, foi instruída interiormente sobre a oração e adquiriu a consciência do imenso amor de Deus por ela, pecadora, uma experiência espiritual que não conseguia expressar com palavras (cf. Vida admirável, 4r). Foi nessa ocasião que lhe apareceu Jesus sofredor que carregava a cruz, como é frequentemente representado na iconografia da santa. Poucos dias depois, foi ter com o sacerdote para finalmente realizar uma boa Confissão. Aqui teve início aquela «vida de purificação» que, durante muito tempo, lhe fez sentir uma dor constante pelos pecados cometidos e que a impeliu a impor-se penitências e sacrifícios para demonstrar o seu amor a Deus.
Neste caminho, Catarina foi-se aproximando cada vez mais do Senhor, até entrar naquela que é denominada «vida unitiva», ou seja, uma relação de profunda união com Deus. Na Vida está escrito que a sua alma era orientada e ensinada interiormente só pelo dócil amor de Deus, que lhe concedia tudo aquilo que ela precisava. Catarina abandonou-se de modo tão total nas mãos do Senhor que chegou a viver, durante cerca de vinte e cinco anos — como ela escreve — «sem o intermédio de qualquer criatura, instruída e governada unicamente por Deus» (Vida, 117r-118r), alimentada sobretudo pela oração constante e pela Sagrada Comunhão recebida todos os dias, o que não era comum na sua época. Só muitos anos mais tarde o Senhor lhe concedeu um sacerdote que cuidasse da sua alma.
Catarina hesitava sempre em confiar e manifestar a sua experiência de comunhão mística com Deus, sobretudo pela profunda humildade que sentia diante das graças do Senhor. Foi só a perspectiva de dar glória a Ele e de poder favorecer o caminho espiritual de outros que a levou a narrar aquilo que se verificava nela, a partir do momento da sua conversão, que é a sua experiência originária e fundamental. O lugar da sua ascensão aos vértices místicos foi o hospital de Pammatone, a maior estrutura hospitalar genovesa, da qual foi directora e animadora. Portanto, não obstante esta profundidade da sua vida interior, Catarina vive uma existência totalmente activa. Em Pammatone foi-se formando ao seu redor um grupo de seguidores, discípulos e colaboradores, fascinados pela sua vida de fé e pela sua caridade. O próprio marido, Giuliano Adorno, foi conquistado por ela, a ponto de abandonar a sua vida desregrada, de se tornar terciário franciscano e de se transferir para o hospital, para oferecer a sua ajuda à esposa. O compromisso de Catarina no cuidado dos doentes continuou até ao fim do seu caminho terreno, a 15 de Setembro de 1510. Desde a conversão até à morte, não houve acontecimentos extraordinários, mas dois elementos caracterizaram toda a sua existência: por um lado a experiência mística, ou seja, a profunda união com Deus, sentida como uma união esponsal e, por outro, a assistência aos enfermos, a organização do hospital e o serviço ao próximo, especialmente aos mais necessitados e abandonados. Estes dois pólos — Deus e o próximo — preencheram totalmente a sua vida, transcorrida praticamente entre as paredes do hospital.
Estimados amigos, nunca devemos esquecer que quanto mais amarmos a Deus e formos constantes na oração, tanto mais conseguiresmos amar verdadeiramente quantos estão ao nosso redor, quem está perto de nós, porque seremos capazes de ver em cada pessoa o Rosto do Senhor, que ama sem limites nem distinções. A mística não cria distâncias em relação ao outro, não cria uma vida abstracta, mas sobretudo aproxima do outro, porque se começa a ver e a agir com os olhos, com o Coração de Deus.
O pensamento de Catarina sobre o purgatório, pelo qual ela é particularmente conhecida, está condensado nas últimas duas partes do livro citado no início: o Tratado sobre o purgatório e oDiálogo entre a alma e o corpo. É importante observar que, na sua experiência mística, Catarina jamais tem revelações específicas sobre o purgatório ou sobre as almas que ali estão a purificar-se. Todavia, nos escritos inspirados pela nossa santa, é um elemento central, e o modo de o descrever tem características originais em relação à sua época. O primeiro traço original diz respeito ao «lugar» da purificação das almas. No seu tempo, ele era representado principalmente com o recurso a imagens ligadas ao espço: pensava-se num certo espaço, onde se encontraria o purgatório. Em Catarina, ao contário, o purgatório não é apresentado como um elemento da paisagem das vísceras da terra: é um fogo não exterior, mas interior. Este é o purgatório, um fogo interior. A santa fala do caminho de purificação da alma, rumo à plena comunhão com Deus, a partir da própria experiência de profunda dor pelos pecados cometidos, em relação ao amor infinito de Deus (cf. Vida admirável, 171v). Ouvimos sobre o momento da conversão, quando Catarina sente repentinamente a bondade de Deus, a distância infinita da própria vida desta bondade e um fogo ardente no interior de si mesma. E este é o fogo que purifica, é o fogo interior do purgatório. Também aqui há um traço original em relação ao pensamento do tempo. Com efeito, não se começa a partir do além para narrar os tormentos do purgatório — como era habitual naquela época e talvez ainda hoje — e depois indicar o caminho para a purificação ou a conversão, mas a nossa santa começa a partir da própria experiência interior da sua vida a caminho da eternidade. A alma — diz Catarina — apresenta-se a Deus ainda vinculada aos desejos e à pena que derivam do pecado, e isto torna-lhe impossível regozijar com a visão beatífica de Deus. Catarina afirma que Deus é tão puro e santo que a alma com as manchas do pecado não pode encontrar-se na presença da majestade divina (cf. Vida admirável, 177r). E também nós sentimos como estamos distantes, como estamos repletos de tantas coisas, a ponto de não podermos ver Deus. A alma está consciente do imenso amor e da justiça perfeita de Deus e, por conseguinte, sofre por não ter correspondido de modo correcto e perfeito a tal amor, e precisamente o amor a Deus torna-se chama, é o próprio amor que a purifica das suas escórias de pecado.
Em Catarina entrevê-se a presença de fontes teológicas e místicas das quais era normal haurir na sua época. Em particular, encontra-se uma imagem típica de Dionísio, o Areopagita, ou seja, aquela do fio de ouro que liga o coração humano ao próprio Deus. Quando Deus purifica o homem, liga-o com um fio de ouro extremamente fino, que é o seu mor, e atrai-o a si com um afecto tão forte, que o homem permanece como que «superado, vencido e totalmente fora de si». Assim, o coração do homem é invadido pelo amor de Deus, que se torna o único guia, o único motor da sua existência (cf. Vida admirável, 246rv). Esta situação de elevação a Deus e de abandono à sua vontade, expressa na imagem do fio, é utilizada por Catarina para manifestar a obra da luz divina nas almas do purgatório, luz que as purifica e eleva aos esplendores dos raios fúlgidos de Deus (cf. Vida admirável, 179r).
Queridos amigos, na sua experiência de união com Deus os santos alcançam um «saber» tão profundo dos mistérios divinos, no qual o amor e o conhecimento se compenetram, a ponto de ajudarem os próprios teólogos no seu compromisso de estudo, de intelligentia fidei, deintelligentia dos mistérios da fé, de aprofundamento real dos mistérios, por exemplo daquilo que é o purgatório.
Com a sua vida, santa Catarina ensina-nos que quanto mais amamos a Deus e entramos em intimidade com Ele na oração, tanto mais Ele se faz conhecer e acende o nosso coração com o seu amor. Escrevendo acerca do purgatório, a santa recorda-nos uma verdade fundamental da fé, que se torna para nós um convite a rezar pelos defuntos, a fim de que eles possam chegar à visão beatífica de Deus na comunhão dos santos (cf. Catecismo da Igreja Católican. 1032). Além disso, o serviço humilde, fiel e generoso, que a santa prestou durante toda a sua vida no hospital de Pammatone, é um exemplo luminoso de caridade para todos e um encorajamento especialmente para as mulheres que oferecem uma contribuição fundamental para a sociedade e a Igreja com a sua obra preciosa, enriquecida pela sua sensibilidade e pela atenção aos mais pobres e necessitados. Obrigado!